segunda-feira, 8 de março de 2010

O Mulherismo de Dilma Rousseff e Marina Silva.

Depois de eu ter acordado deste sono profundo (estive em estado de coma por incontáveis meses), o grande mérito foi que não tornei-me complacente com qualquer rosto explicitamente simpático, nem passei a aceitar passivamente a mais escancarada declaração polêmica. Por isso, assim que vi o Caetano Veloso dizer que entre a mulher e o preto, ele ficava com o preto, referindo-se a Barack Obama, não hesitei, dei chilique, pus-me a escrever.


No Brasil, se formos avaliar especificamente melanina e genitália, quanto à primeira característica, naturalmente vê-se, pela confusão étnica de séculos, que o indivíduo pode se dizer negro ou não, é questão de escolha, é questão de entendimento, é uma determinação cultural. Quanto à genitália, não há para onde correr, ou é homem ou é mulher. Apesar de casos como os de hermafroditas, vai-se sempre puxar para um dos lados.


Porém, existem dois casos graves de mulheres, neste país, que menos parecem mulheres, são seres originalmente militantes, e que por conta de tal origem, lhes foi retirada a mínima feminilidade que poderia existir: é o caso de Dilma Rousseff e Marina Silva.


Crias do PT, esses bravos seres hoje correm em correntes opostas: Dilma – a Uspiana Stalinista – é o braço direito de Lula, a opção de Lula para a Presidência nos próximos quatro anos. Já Marina – eterna ecologista –, depois de anos inúteis no Ministério do Meio Ambiente, no atual governo, desistiu, rompeu, e agora dá a cara para baterem no renovado abrigo de esquerdistas frustrados: o PV.


Mas há um gradual processo revolucionário que se passa dentro apenas destes dois seres, destas eternas militantes, que é a interna revolução estética, o que chamo aqui de Mulherismo.


Ao vê-las como candidatas, o que, verdadeiramente, me intriga é o enorme trabalho que seus respectivos marqueteiros terão em transformá-las em mulheres. Porque sabe-se bem que – entoa-se aos quatro cantos do mundo – imagem é tudo e já não cabe nos dias atuais o semblante másculo marxista – quase barbudo – de Dilma, nem a cara enfezada e nula vaidade de Marina.


Será preciso revoná-las, dar-lhes a feição de uma outra revolução da qual ambas desaprenderam nestes infindos tempos de militância, greve, seminários e palestras, acrescentar a estes seres o mínimo traço de Mulherismo.


Já há algum tempo, os homens de marketing do PT, porque tem recursos e a máquina do Estado nas mãos, iniciaram esta dura jornada na aparência de Dilma, juntou-se à pasta da Casa-Civil rigorosas aulas de etiqueta, orientações sobre comportamento social simpático e, compulsivamente, as video-aulas sobre o poder do carisma. Sem falar na carregada maquiagem, nas femininas vestimentas e na providencial peruca em tempos de recuperação operatória. Há boatos de botox espalhados em seu rosto. Não há provas.


No caso da Marina, as armas não são tão fortes assim, o recurso é pouco, a vontade de parecer menos robusta é muita. Mas os primeiros sinais de mudança de conduta da moça não se pautaram numa tentativa de carisma, absolutamente. Nem houve renovação de seu guarda-roupa. Em propaganda política, a acreana surge com a fala mansa, o corpo curvado, a cabeça quase toda inclinada, como quem quer nos mostrar toda a amplitude de sua humildade, e tomando como primeira ação, para chegar aos bons olhos do público, o que bem aprendeu com a cúpula de seu anterior partido, rebuscando sua história, contando dos tempos difíceis da infância e da adolescência ainda analfabeta, passando pelos dias de luta e prazer com Chico Mendes na Amazônia, até os prêmios recebidos enquanto nula ministra do Meio Ambiente.


A questão-chave é: pouco interessa a genitália. Dentro das instâncias de poder não é esse mero aspecto, essa simples couraça que vai determinar a sorte de uma nação. Muito menos a origem do indivíduo vai ser determinante, que é bem o caso do nosso Presidente, como se ele nunca tivesse deixado de ser operário.


Já se pode dizer o óbvio desde então, ambas se pautarão na conversa fiada neo-feminista, na hora do embate mais ferrenho, decerto, colocarão na mesa o fato de serem mulheres, e ao invés de trazerem para primeiro plano debates e programas de governo, estes seres que ainda guardam dentro de si o ranso soviético trarão à nossa vista seus sorrisos forçados, seus carismas automatizados, a falsa impressão de que são antes de tudo, pasmem, mulheres, o que sabemos que é mentira (militantes são militantes, não tem sexo), como se fosse o bastante serem mulheres e que se acaso fossem mesmo mulheres, sejamos sensatos, não é nem nunca será o suficiente para ter as mãos de ferro que é governar um país. De unhas pintadas, ou não.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Da inutilidade da ONU (o que não se usa, joga fora).

Detesto quando digo, quando dizem: “Eu sou do tempo...”. Qualquer saudosismo é insuportável e invariavelmente preconceituoso. Mas, não tem jeito, sou mesmo de um tempo em que aquilo que não usamos mais é porque já não nos serve mais, e se não serve, não presta, é preciso jogar fora. Ainda não eram os tempos emergentes da reciclagem. Decerto, de tudo que percebo no mundo e considero inútil – não são poucas as coisas inúteis ao nosso redor – a única suposta inutilidade que não contesto é a poesia, embora eu tenha cá um tanto de resistência quanto a esse teor inútil que há algum tempo teóricos e poetas dão à bela arte. Mas isso eu discuto depois. Pois bem, o resto, todo o restante que julgo inútil, não hesito, desprezo, absolutamente, jogo fora. Inclusive a ONU.

Sim, inclusive a ONU. Porque há quem ainda questione como pode o avião voar, como pode uma pessoa ressuscitar no terceiro dia, de onde viemos, para onde vamos. E são todos, com seu devido valor, questionamentos relevantes. Somente a inutilidade da ONU é inquestionável. Porque fora inaugurada depois de um inevitável surto epidêmico pacifista, fruto das bombas atômicas sobre solo japonês, a Organização das Nações Unidas apareceu, à época – e pelas circunstâncias não seria diferente –, dentro dos moldes em que surgem os salvadores da pátria, os tais redentores. A diferença é que não se personificou, veio como instituição, e sua função é além-pátria, é planetária.

E começou assim mesmo: depois do pesado troco que os Estados Unidos deram ao Japão, um grupo de pessoas sensatas, é verdade, decidiu que era necessária a existência de uma instituição que estivesse acima dos interesses particularmente nacionais, uma instituição que, nos padrões de poder de um Estado, fosse, no mínimo, mediadora em relações diplomáticas mais tensas e até mesmo tivesse autonomia suficiente para frear ou reprimir relações em que a diplomacia e a mediação não fossem suficientes.

Não há como negar a boa intenção, embora para excesso de boa intenção nós já temos o inferno. Boa intenção não enche a barriga de ninguém. Não convence ninguém. A ONU disso mal passou porque ficou tudo no papel, até respeitado, verdadeiramente um documento legitimado por inúmeros países, mas que quando recai para vias práticas, não deixa de ser mero coadjuvante, produto final de celulose. É que a função de mediadora da ONU é demasiado mediadora, a ponto de, no meio de uma efervescente discussão entre dois países, sua mediação tornar-se muda, impraticável, impotente. E daí não haverá freio que detenha um conflito além das agressões verbais.

Essa semana, saltaram das cadeiras, assustados, chefes de Estado, gigantescos empresários, acadêmicos, pacifistas, mídia em geral, com o lançamento de mísseis norte-coreanos, último sobrevivente comunista do século passado em pleno século XXI. Só o fato de persistir vivo hoje um país com tal característica já nos dá bem uma noção da inutilidade da ONU. Mas, é óbvio, a mediadora não se calou, pelo contrário, esbravejou, esperneou, deu chilique, lançou ofício, panfleto, manifesto contra o governo da Coréia do Norte. E a gritaria surtiu efeito: depois do primeiro míssil lançado, o ditador avisou que lançaria outro, e assim o fez. Bastou outra ação presepada da ONU, e já avisaram o lançamento do terceiro míssil também. Por aí já dá para ver o apagado poder de fogo da ONU, que faz questão de ser a primeira a se manifestar, pronunciar, responder, quando o assunto é universal, digamos assim, e é a primeira a agir – porque há quem ignore, mas a inércia é um tipo de ação.

Durante mais da metade da era Bush, os Estados Unidos massacraram civis e viram seus jovens soldados massacrados no Iraque; a Bósnia, por anos, viveu batalhas legitimadas sob a direção de um tirano; a Faixa de Gaza, desde sempre em pé de guerra, jamais obteve intervalo de bombardeio; sem falar nas históricas guerras civis em alguns países africanos. E estou falando de conflitos que continuaram existindo antes da Segunda Guerra Mundial e de outros tantos Pós-guerra. E então o que fez a ONU? Apitou, lógico, seu velho apito mudo.

Mas não sejamos injustos, há mesmo dois, conta-se assim, nos dedos, dois trabalhos verdadeiramente efetivos executados pela ONU: levar suas tropas a países devastados para lá serem devastadas; e arremessar, de helicópteros, alimentos a gente faminta em território onde nem a ONU ousa tocar. Nesse caso, dos alimentos, é como a atitude espírita de levar sopa toda quinta-feira à noite para moradores de rua, mas, claro, numa proporção muito maior.

Embora tenha passado décadas de absoluta inutilidade, hoje, até o Vaticano tem mais voz e ação efetiva do que a ONU. Talvez por causa da robusta face, do discurso agressivo do Ratzinger. Talvez seja isso, a ONU precisa, de fato, ser um Ratzinger, pois sua efetividade é invisível, ineficaz como a de quem vê algo errado, avisa e fica de parte, resmungando, olhando. Se fora criada para cumprir esse papel, melhor mesmo que não existisse porque, depois de sua fundação, reais mudanças não ocorreram, continuamos passando por covardes conflitos – que a ONU nunca resolveu, até os agrava –, crises financeiras – que a ONU não questiona nem mesmo o sistema capitalista –, fomes saciadas, vez ou outra, por campanhas – patrocinadas pela ONU – de artistas repletos de remorsos, e a ONU, rígida como um poste, levanta, a todo momento, soluções que não passam daquela mesa importante, impotente.

Já dizia um velho historiador que o que vale é o que fica na História, ainda que isso dependa de quem escreva essa História. No caso da ONU, pelo grau de sua inutilidade, mesmo comparsa explícita de grandes financiadores, implícita comadre de ditadores e pseudo-democratas, não há História que salve sua pele, não há mentira que dure tanto tempo porque o que não nos serve, um dia – o dia virá –, jogamos fora. No lixo da humanidade um cantinho reservado para a ONU. Reciclagem tem limite.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

A Bolsa de Valores tem cheiro de Anarquia.


Não há espaço para Ferreira Gullar na Bolsa de Valores. A selvageria capitalista vive hoje seu apogeu espiritual que é o prenúncio de uma total anarquia. Porque não consigo desvencilhar a natureza humana do estabelecimento de uma ordem social que a oriente, pois que é imprescindível a existência de uma instituição, ainda que imposta, que nos regule, que determine nossas condutas para a boa convivência humana.


Vasculhando jornais antigos, dia desses, vi o rosto do Ferreira Gullar. Era uma entrevista em que o poeta dizia que o sistema capitalista, embora nos dê a aparência de uma ciência exata e lógica, é impulsionado pela emoção, por conta da competitividade, do desenvolvimento e constante ininterrupto avanço tecnológico concorrencial. Por outro lado, afirmava o poeta, que, para engano de muitos, o socialismo sim é que é um sistema socioeconômico racional, pois pensa-se a organização civil pautada no cálculo equitativo e significativamente comum a todos os membros. Nisso concordo com o Ferreira Gullar. Apenas nisso. Sua análise é bem fundamentada e brilhante, e vale mais do que uma antologia poética.


O raciocínio do poeta fez-me ver a barbárie para onde estamos caminhando, a disputa desmedida e desregrada do mercado ganha cada vez mais proporções em que a ética se desmancha e legitima-se a desleal e covarde concepção de um “vale-tudo”, sem deixar de fora golpes baixos. Óbvio que não faço aqui, como oposição a esta bagunça financeira, uma apologia a qualquer tipo de tirania estatal, aos moldes de séculos passados ou vindouros. Mas aonde muitos vêem o capitalismo – ou neoliberalismo, como queiram – em sua fase de ascensão globalitária, percebo, nítido, o crescimento de um poder não-institucional um tanto sedutor, moralmente equivocado e desumano: a anarquia do capital.


Previamente já coleciono arrobas de originais anarquistas que devem estar por agora relinchando impropérios contra mim por causa do uso indevido – assim dirão – do termo “anarquia” para a criação de um segundo termo acoplando-o ao capitalismo. Mais do que mera provocação, utilizo o termo para bem definir e comprovar a proposta do mercado: ausência de regras estatais, estabelecimento desmesurado de isenções fiscais, competitividade ultrapassando os limites da ética – palavra infinitas vezes citada em documentos de valor estatal, como a Constituição, por exemplo. Acontece que a comparação irritante, ou melhor, a acusação vexatória que mantenho aqui, concebendo ao capitalismo atual e futuro um caráter anárquico, se dá porque primeiro discordo em absoluto do Anarquismo, que é um não-sistema político sem determinações econômicas, e porque discordo, em específicos aspectos, do sistema capitalista.


Jamais trocaria os avanços tecnológicos e mesmo a existência conflitante de classes por uma barbárie que, bem sabemos, não admite regras, leis e deveres. Mas a pretensão do mercado de se tornar voz ativa e desativar qualquer sopro de comando que venha de instâncias estatais, de fazer de nossos atos e costumes singelos slogans, tornando hábito sonhos unicamente de consumo através de suas invejáveis invenções e produtos de última geração criados a cada semana desrespeita nossa condição de ser humano e elimina códigos milenares de convivência social. Isso contraria nossa natureza, isso sim é uma imposição.


Já os apólogos desse novo anarquismo, quando me refiro à importância do poder de um Estado Civil, que regule, na medida certa, nossa vida socioeconômica, decerto abrirão brechas para o discurso de negação deste tipo de intervenção, alertando para o perigo do surgimento de um regime ditatorial, tal qual vivemos, a rodo, no século passado, onde China personificou-se Mao Tsé-Tung, Cuba concretizou-se referência à aparição de outros tantos comandantes latinos e Rússia esbarrou em Lenins, Trotskis e Stalins por metro quadrado de soviets.


Fico em acordo com a percepção do professor Milton Santos quando diz que o Estado hoje se fortalece para a instituição de regras ditadas pelo mercado. Uma prova cabal se vê aqui no Brasil, onde, antes mesmo de o mercado desmoronar qualquer instituição estatal, os próprios poderes legislativo e executivo já vem dando longuíssimos passos à ausência de crédito e respeito aos olhos da sociedade, pois a cada três dias um escândalo parlamentar é noticiado. E por mais que a mídia – na maioria, grande acionista da anarquia do capital – faça pouco caso da mais-valia e vista-se sempre de vistas grossas ao Congresso e adjacências, uma coisa é certa, contra fatos não há argumentos.


É necessário o grande retorno à busca do equilíbrio entre o que naturalmente desejamos e o que podemos ou não fazer, desde que não fira os desejos de outros indivíduos. E é esse o papel do Estado, a fundamental intervenção à farra mercadológica, impondo freios constitucionais, visando negar a barbárie – fim de tudo – pois esta anarquia de capital é absolutamente reversível, desde que sofra reparos que nos leve a avanços, enfim, sociais, o que é bem diferente da anarquia proposta pelos tais legítimos anarquistas, que desprezam regras, desprezam instituições, transformando em concreto pensamento a poética e naturalmente isolada ilha que Thomas Morus, um dia, levou tão a sério.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

HÁ MIRA PARA A CENSURA?


O sangue que outrora pingava de jornais impressos já há algum tempo derrama aos litros nas telas de televisão. O que antes, lido, nos dava a sensação por meio de nossa capacidade imaginativa hoje salta aos olhos, pronto e mastigado. E neste caso, bem na hora do almoço: O programa “Na mira”, da TV Aratu, esta semana sofreu liminar do Ministério Público e tem sua exibição proibida. Se contrariar a decisão judicial, terá de pagar diariamente uma singela multa de R$ 50.000,00.


Eis mais um retrato fiel de nossa falsa democracia: tão grave quanto a liberdade de expressão interrompida, existe aqui o julgamento moral de uma específica classe social tomando proporções institucionais, determinando o que todos – independente de classe – devem consumir ou assistir. Porque uma coisa é fato, a proibição, a atitude de condenar o programa não partiu de nenhum movimento social popular, muito pelo contrário, as pessoas mais pobres – logo, as que vivem à margem – se identificam com o programa, assistem-no religiosamente todos os dias e não se queixam de ver seu prato de comida ganhar o tempero cru de corpos fuzilados, brigas de vizinhos, apreensão de drogas e até manifestações demoníacas em igrejas evangélicas.


Há quem prefira Disneylândia, há quem fique com a novela. Nossa decadente classe média, que já não tem tantas opções nem condição de pagar o pacote mais simples de uma TV a cabo, é obrigada a suportar a realidade sem máscara nem disfarce, se vê obrigada a fomentar seus medos, porque preferem manter-se distantes de assuntos, que acreditam, estar fora de seu contexto social. Já a elite não tem nenhum dedo nessa atitude arbitrária porque tem coisas mais sérias a resolver, como a crise financeira, por exemplo.


O programa “Na mira” pode não ser mesmo uma referência de educação na TV, mas deseducar e enganar não são suas prerrogativas, o que é muito comum em propagandas publicitárias (comerciais e governamentais), nos ditos telejornais sérios e nos despretensiosos programas de entretenimento. Por mais escrachada e anedótica que seja a abordagem das nossas mazelas por parte do sensacionalista Uziel, não dá o direito à classe média de saltar do espanto ao esmagamento constitucional, passando por cima de um direito legítimo e há tão pouco tempo conquistado: a nossa liberdade de expressão. Não dá direito ao Ministério Público camuflar-se de censor em pleno século XXI.


Os que se dizem esclarecidos – decadentes socioeconomicamente falando – justificam esta forma singela de censura querendo fazer-nos crer que o tal programa incentiva a violência. Mas como se incentiva ao que é intrínseco no ser humano? De fato, o programa reacende em nós nosso instinto mais primitivo – não é por acaso que são as camadas mais populares as que se identificam, porque vivem no limite de sua sobrevivência -, mas, por outro lado, as cenas chocantes quando vêm à tona em formato de imagem animada, nos dá uma dimensão mais precisa e palpável do que está ao nosso redor. Os tais esclarecidos, ao invés de fazerem desta constatação um instrumento de radical mudança da realidade, resumem suas ações a um ato de censura, tirando o programa do ar, levando-se por seus instintos egoístas de classe, preferindo esconder a vida real, se utilizando de mentirosas justificativas, que vão desde acusações racistas a intolerância religiosa.


Outros tantos programas, outras tantas atitudes, em outras épocas – não se enganem, estou falando de um Brasil recente, pós-Ditadura Militar – sofreram a repreensão desses novos censores. Ratinho sofreu liminares por causa do modo abusado e circense de mostrar a intimidade popular; Gugu passou por poucas e boas por conta de suas atrações pitorescas e pseudo-eróticas; e até o global Fausto Silva foi reprimido por causas das esquisitices que se apresentavam em seu palco. Pois bem, a vontade popular é quem dá a resposta na medida certa. Na maioria das vezes, a crescente e espontânea falta de interesse, o desgaste natural por parte do próprio público em relação a esses programas funcionou muito mais do que as tentativas judiciais de proibição. O enjôo popular foi o grande júri desses medalhões: Ratinho, porque não renovou-se, sumiu do mapa; Gugu apelou para os meios filantrópicos de ganhar audiência e vem mantendo regulares pontos de audiência; Fausto Silva teve de renovar-se e deu certo, voltou ao topo do IBOPE aos domingos.


Não somos inocentes ao ponto de negar em cada um de nós a censura moral que a todo tempo exercitamos. O problema é quando esta amena censura ganha proporções institucionais, quando ela é legitimada e se torna lícita sob o comando de uma determinada classe social que acredita ser a nata intelectual do país, porque ainda ergue, soberba, um suposto título de elite cultural.


Não vou mentir, temo ver, num futuro não muito distante, pregadores da palavra bíblica, esses que se espalham em praças públicas e em pontos de ônibus, sendo detidos por atentado à fé. Ou aos ouvidos, talvez.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

EU PREFIRO O RATZINGER!


Obama entende mais do Brasil do que o próprio Brasil. Quando disse: “I am brown”, somente o movimento negro, por aqui, não ouviu essa frase. Não ouviu porque é fútil, agressivo e ineficaz. Agressivo porque proclama o que não entende, louva o que não existe, prega o que não tem fundamento. Fútil por conta das tranças, modas e babilaques como uma forma – creiam! – de se fazer política com valorização estética, na maioria das vezes, exagerada e caricata (conheço uma moça negra que só se veste com aquelas batas amarronzadas que nem na África se usa mais). E ineficaz porque simplesmente o seu discurso bicolor é vazio e não contempla a escrachada realidade multicolor brasileira.


O que há em comum entre Obama e o movimento negro no Brasil vai além da melanina: a falsa ingenuidade. As nossas siglas afro-descendentes parecem ingênuas ao gritar para todo o mundo que o Obama é negro, ainda que o próprio tenha declarado - bem ao modo Caetano Veloso - que é mulato. É o que disse: parecem ingênuas nossas siglas afro-descendentes. Assim como o novo presidente também parece ingênuo com seu semblante leve, risonho o tempo todo e sempre com uma piada pronta na ponta da língua. O rosto do Obama é o retrato da falsa ingenuidade, a ingenuidade que o Bill Clinton não teve ao borrar a imagem do seu partido com um inusitado sexo oral em plena Casa Branca. A arrogância do Obama é a mesma de um republicano qualquer, havendo a diferença apenas na circunstância em que o democrata chega ao poder, a economia e a reputação estadunidense indo por água abaixo, um país mundialmente desmoralizado, derrotado pela política suicida do Bush e tendo como inevitável resultado o advento de um redentor.


O rosto limpo do Obama engana tanto que até o ranzinza Fidel Castro está acreditando na boa vontade e no discurso amigo do presidente estadunidense ao se aproximar da ilha maldita com ares de desbloqueio comercial. Fidel é ingênuo sim. Tornou-se. Na infância e na velhice é que vivemos o mais puro estado de ingenuidade.


Obama é o João Paulo II do império estadunidense. Eu fico com o Ratzinger! João Paulo II, com aquele rostinho pronto para sofrer atentado, sempre enganou e dissimulou o mais que pôde uma igreja que não existia: tolerante, participativa, moderna. Assuntos relevantes da cartilha católica foram deixados de lado e o que prevaleceu foi a imagem individual e personalista de um simpático pregador da paz, de um sujeito que não tinha nojo de beijar o chão que pisava.


Eu prefiro o Ratzinger. Visceral, verdadeiro, sem máscara. Não há maquiagem global ou hollywoodiana que encubra, de todo, o semblante rasgado, grosseiro e reacionário de Ratzinger – até no nome, vejam só.

Em nada se compara o posicionamento despolitizado e ineficaz do João Paulo II com a firmeza apostólica do nosso Papa, sua ousadia de pregar abertamente contra a camisinha - em favor do amor - em pleno continente africano, onde AIDS e DST são siglas constantes no dia-a-dia. João Paulo II jamais se portou com a mesma veemência contra o aborto, sua inércia era tão gritante que às vezes parecia envergonhar-se de citar tal assunto em seus discursos. João Paulo II mais prejudicou do que contribuiu. Sua pose de homem do mundo, suposto Gandhi, afastou sua própria imagem e afastou também muitos fiéis da igreja. Não fossem os carismáticos e suas dancinhas, o trabalho do Ratzinger em trazer de volta o rebanho desgarrado seria muito maior.


Ratzinger sim representa bem a igreja, não dá espaço a pseudo-católicos, em seus discursos há doses consistentes de dogma, vai às origens da palavra bíblica, passando por assuntos atuais sem concessões, maldizendo, como é, de fato, seu dever, o aborto, a camisinha e a homossexualidade.


Admiro o Ratzinger. Um exemplo, uma referência de total inexistência da falsa ingenuidade tão comum em democratas, tão comum em movimentos ineficientes, tão comum em ecumênicos. Porque não é qualquer homem que tem a cinzenta ousadia de declarar que "a salvação dos homossexuais é tão importante quanto a salvação das florestas". É preciso ser Ratzinger, muito Ratzinger.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

COMO ASSIM MARROM?


Entusiasmada com os noticiários das eleições presidenciais dos Estados Unidos, dona Carmelita, moradora do Pero Vaz, disse-me um dia: “Eu vou votar no Obama!” Marrom como o democrata, esta simpática senhora acompanhou, orgulhosa, o surgimento – de uma hora para outra – de uma nova raça norte-americana: os marrons.


A palavra “medíocre” interessa muito menos pela sua semântica do que pela sua sonoridade. Dado que sou a utilizar as palavras de forma clara e coerente, digo que se o comentário do Berlusconi, presidente da Itália, pode ser considerado infeliz, quando ele, cheio da razão, proclama: “Barak Obama é bronzeado!”, não hesito em dizer que a auto-afirmação do próprio Obama, quando diz: “Eu sou marrom!”, é, pavorosamente, medíocre. Pois bem, contentem-se, Barak Obama é marrom. Olhando assim, vemos que na senzala do norte Obama decepa o pé, nega sua raiz, nega-se negro, que, especificamente no caso dos Estados Unidos, é uma lamentável declaração, pois, além de fugir da briga, do acirrado conflito bipolar de séculos, trás à tona um sutil questionamento: se o Obama não se considera negro, por que é que o movimento negro do mundo todo assim o considera?


Talvez a emergência de se retirar o Bush do poder, colocando em seu lugar um candidato do partido adversário, tire um pouco o foco da declaração do democrata, fazendo assim valer o argumento um tanto ortodoxo dos movimentos negros, que pouco se interessam que o Obama prefira-se marrom, pois, vale mais o que eles, do movimento, consideram, o que não se diferencia muito da satisfação que sentem estes mesmos ortodoxos pelo posto que Condoleezza Rice ocupa, sobrepondo a melanina às ações e discursos da Chefe de Estado.


Sim, Obama é marrom. Porque em nenhum momento de sua campanha trouxe, da devida maneira, o discurso em favor de negros e negras estadunidenses, em nenhum momento citou de maneira contundente referências do movimento negro, preferiu a pose de bom moço, negando-se, como se não existisse o conflito, como se, pacificamente, estivesse resolvida a questão racial pelo simples fato de dizer-se, abertamente, marrom. Creio que o Obama, para chegar a tão pobre conclusão deve ter-se olhado no espelho, num dia revelador, e por se ver menos preto que o pai (preto como betume), menos claro que a mãe (branca como a neve), convenceu-se: “Eu sou marrom.” O problema é que ele levou o espelho para o palanque. E a fundamental diferença, que, assim parece, de nada serviu ao presidente marrom, é que a corajosa atitude de seus pais, assumindo um relacionamento, ultrapassando as barreiras da pele, numa época complicada, em que até bebedouros eram instrumento de racismo, foi, inegavelmente, uma atitude revolucionária. Revolução esta que o Obama tem em mãos, mas despreza, preferindo um tom mais leve.

Há quem diga que ter-se declarado marrom é, talvez, uma jogada política, uma forma de chegar a todos sem partir para o embate como um desequilibrado, como se levasse em conta o temor de Sartre ao afirmar do perigo de um racismo às avessas. Honestamente, não valido o medo do Sartre e descreio completamente dessa teoriazinha da conspiração. A declaração aparentemente apaziguadora do Obama, quase “Lula Paz e Amor”, como se pretendesse mostrar que ele não está ali para acirrar ainda mais o conflito racial em seu país, prejudica mais do que auxilia, já que serve apenas para manter esta realidade no mesmo patamar, pois não revitaliza, nos negros estadunidenses, o sentimento de luta e afirmação tão bem exercidos por inúmeros expoentes das décadas de 60 e 70 do século passado. Pois bem, dirão que isso fora necessário apenas no século passado, as circunstâncias atuais são outras. Sim, as circunstâncias são outras, mas é fato que o convívio entre brancos e negros nos Estados Unidos permanece estagnado, e não é por acaso, nem mesmo diferente do restante do mundo, que a injusta distribuição de renda ou mesmo uma crise financeira global afeta, diretamente, a vida de negros e negras estadunidenses.


Muito diferente do que acontece aqui, onde há uma nítida gama de tonalidades de melanina, trazida à luz por Gilberto Freyre, a questão racial nos Estados Unidos não se estabelece por sutilezas e falsa moral, muito menos está incorporado na cultura deles o nosso cultural racismo velado. Lá é de um extremo a outro, ou é negro ou é branco (fora isso, vêm os latinos, o que já é adversário mais recente e entra, decerto, em outro contexto). Este conflito sempre explícito aos olhos do universo jamais sofreu grandes alterações, pois, desde sempre houve uma separação das cores, que vai desde localizações até classes sociais. Fala-se em bairros negros, em classe média negra... assim também ocorrendo com os brancos.

A medíocre declaração de Obama serve de reflexo para sabermos a quantas anda o estado atual de auto-afirmação racial de seu país, serve para vermos o quão a negação de si mesmos por parte dos negros deixa de ser uma negação velada e torna-se, cada vez mais, uma explícita derrota, que se dá em todos os aspectos, da estética à economia, sobrando a caricatura de negros assumidos para os emergentes milionários negros, oriundos do RAP, principalmente, que exploram e desmoralizam – ora, ora – outros negros que não tiveram a mesma sorte nem talento de cantar a realidade do gueto, vivendo em mansões, montados em seus carros conversíveis, com a boca cheia de dentes de ouro.

Enquanto no Brasil, o ator Milton Gonçalves sofre perseguição por parte do movimento negro por interpretar, em horário nobre, um deputado corrupto – como se para roubar dinheiro público fosse necessário medir a melanina –, não ouvi um estrondo sequer por parte desse mesmo movimento inquirindo, condenando Obama, considerando-o, naturalmente, um covarde porque não assume sua cor, não assume sua raça, fica em cima do muro, nem lá nem cá, prefere ser assim, marrom. Como assim?

terça-feira, 28 de outubro de 2008

CONTRA A GOROROBA, FAÇAM-ME UMA GARAPA!


Quando o Gilberto Gil pensou na Geléia Geral – bem antes dessa fala calma e sem lógica, apenas melódica, dos discursos e entrevistas dos últimos anos – em nada tinha a ver com a grande bagunça que são as alianças partidárias em nosso país. Naquela época, a política de Gil eram cabriolas e cambalhotas sobre gravatas e paletós. E uma coisa é certa: quem ainda engatinha, obviamente, não fica em pé. A baderna partidária que vivemos serve de falsa auto-afirmação de que somos sim um país democrático, serve apenas para legitimarmos a tamanha confusão sem cabimentos nem critérios, abrindo brechas profundas para a falta de escrúpulos e consistência partidário-ideológica, pois, nessa linha de Democracia tão proferida pelos deformadores de opinião legitima-se quem um dia é oposição e numa determinada circunstância, nitidamente interesseira, torna-se situação, tal fosse essa promiscuidade um pequeno exemplar dos supostos primeiros passos de nossa vida democrática. A verdade é que ainda ralamos os joelhos no chão.


Faça-se um resumo do que gerou o resultado das Eleições Municipais deste ano: No Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB) venceu – apoiado por Lula e pelo DEM que faz oposição ao Governo Federal no Congresso – o candidato Fernando Gabeira (PV) – ex-PT, que teve o apoio dos artistas e que no Congresso sabe que seu partido é aliado do Governo Federal; Em São Paulo, Kassab (DEM) – que rompeu com o PSDB, contou com o apoio, no 2º turno, do mesmo PSDB – derrotou, humilhou Marta Suplicy (PT); Em Belo Horizonte, o mesmo PSDB, digamos, mais flexível, foi o fundamental aliado de Márcio Lacerda (PT) para derrotar Leonardo Quintão (PMDB), que sabe, como todos sabem, que seu partido é base do Governo Federal; Em Salvador, João Henrique (PMDB) – abraçado a Lula, de mãos dadas com ACM Neto (DEM), que é oposição ao Governo Federal – apagou a estrela de Pinheiro (PT) – de mãos dadas com Lula e agarrado a Imbassahy (PSDB) e Raimundo Varella (PRB), no 2º turno (este último esteve com ACM Neto no 1º turno, mas debandou contrariamente na 2ª fase das Eleições). Sem falar nos pequeninos repartidos partidos – PP, PR, PSL, PHS, PSDC, PMN, PT do B, PTC, PPS, etc. – que vão de uma ponta a outra, buscando a melhor sombra para sobreviver.


É a isto também que os Alexandres Garcias, os Ricardos Boechats, os Mários Kértezs e as Mirians Leitões chamam de Democracia. Mais que isso, imbecilmente, estes deformadores de opinião comemoram a cada Eleição esta farsa, como se a farra e repartição infindável do pensamento partidário no Brasil fosse um grande avanço para nossa sociedade, um grande avanço na construção democrática do país.

É preciso paciência, há tempos ansiamos por um regime democrático duradouro, pois o Brasil ainda é novo nesse negócio de Democracia, recomeçamos outro dia, pois foi outro dia que trouxemos Fernando Collor ao poder – um exemplo nítido do quão despreparados estávamos. Antes disso, vivemos décadas de Ditadura, tendo experimentado ligeiro espaço de tempo democrático (Jânio, JK, Jango), sem contar com o poder estabelecido, anos infinitos antes, por Getúlio Vargas, ora mandando – Estado Novo –, ora dialogando – curto período democrático, que culminou no suicídio do líder. Fora isso, o que vem antes do Pai dos Pobres não tem nem cheiro de Democracia.

Não estou aqui dizendo que não vivemos nem que não devemos viver democraticamente. Pelo contrário, estou corrigindo, deixando claro que não é este fogaréu de partidos que vai fortalecer nossa Democracia. Muito menos essas alianças descabidas são o melhor exemplo de se viver verdadeiramente uma vida democrática. Decerto, esse fogaréu confunde, ameaça sensivelmente a tomada de idéias e práticas viáveis, pois a partir do ponto em que não se estabelecem majoritárias correntes de pensamento político, perde-se a chance de resolvermos efetivamente os problemas da vida sócio-econômica, fazendo com que essa enxurrada de partidos não passe de um grande conglomerado de pequenos cartéis, fontes burocráticas de interesses exclusivamente financeiros.


Ao sugerir este estreitamento não estou de forma alguma justificando a manutenção, ainda teimosa, de uma visão maniqueísta partidária, como se tivéssemos que, burramente, outra vez, dividir o país em meros comunistas de um lado, expressivos capitalistas do outro. O século passado passou, mas restam ainda teimosos cadáveres que às vezes alteram voz e discurso em minúsculos soviéticos palanques. Creio que é preciso achar o equilíbrio necessário, é imprescindível que os posicionamentos dos partidos tomem tendência real e transparente, ou melhor, é fundamental a derrubada de determinados partidinhos e que haja o crescimento e amadurecimento estrutural e espiritual de partidos verdadeiramente influentes.


Vejo o exemplo dos Estados Unidos. Não por acaso o amadurecimento explícito da Democracia Estadunidense, pois lá, de verdade, existem apenas dois partidos: Democratas e Republicanos. E não são opostos, absolutamente opostos, possuem pontos de vista diferentes. Nessa hora entram outros deformadores de opinião, foices e martelos em punho, para negar a existência de Democracia nos Estados Unidos. Além de ser uma opinião baseada no ranço da inesquecível Cortina de Ferro, há uma visão deturpada sobre o assunto, pois lá, num país que jamais viveu anos de chumbo, é que as definições ideológicas, podendo não ser as mais eficientes, são, em absoluto, concretas e bem estabelecidas. Não é mesmo por acaso o fervor e participação ativa de toda a sociedade estadunidense ainda nas prévias das Eleições presidenciais.

Mesmo sem saúde e fisiologia adequada, eu fico com as cabriolas e as cambalhotas, pois, num país onde Frank Aguiar é deputado federal, Léo Kret é vereador(a) e Netinho de Paula é comunista, melhor a bem intencionada Geléia Geral do Gil do que esta existência frágil da gororoba, que, no Brasil, insistimos chamar – de boca cheia – Democracia.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

TÁ NA CHUVA É PRA SE MOLHAR. TÁ NA SOMBRA É PRA DEFINHAR.



Curto e grosso, saibam: o último comunista petista soteropolitano morreu entalado com acarajé e coca-cola. Sobra no Partido dos Trabalhadores uma gente que se entope de acarajé e coca-cola, mas não morre, porque lá quem outrora andava à esquerda, hoje trafega no caminho do meio. E o que era pedra deixou de ser. Virou PSDB. Eis a postura explícita de uma mudança que já se desenha há algum tempo: PT e PSDB alinhados num mesmo patamar nas eleições da Prefeitura de Salvador, no decisivo 2º turno. Imbassahy apóia Pinheiro que está com o presidente Lula que tem uma escancarada e estratégica simpatia por João Henrique. Não, isso aqui não é uma conspiração aos moldes fantasiosos de Hiltons e afins. Não são todos farinha do mesmo saco. O PMDB, em si, engloba os mais variados tipos de farinha num mesmo saco, pois onde se engole Garotinho, se degusta Pedro Simon. PT e PSDB, aos poucos, se entrelaçam e vêm demonstrando, sem rodeios, que as diferenças são superficiais.

E quanto ao PC do B? Vai na sombra. Na sombra do PT. Fora isso, PSOL e PSTU seguem, raivosos e estressados, sem rumo, sem sombra, sem água fresca. Porque, de fato, esta aproximação, em Salvador, é uma reaproximação: Lídice da Mata, quando tucana, contou com a ajuda do PT para derrotar ACM em 1992; há quatro anos, João Henrique no 2º turno com César Borges, PT e PSDB, cada um no seu quadrado, apoiaram fervorosamente o atual prefeito; e no Governo Estadual a base de Wagner, na Assembléia Legislativa, é o PSDB.

E no meio desse laço fraterno – outrora tímido, hoje descarado – que vem se construindo na Bahia, o PC do B, em Salvador, permanece no papel de figurante, figurinha repetida e descartável, mera peça de enfeite que transita entre o progressismo paliativo de um PT e a tendência caricatural e panfletária de seu Estatuto baseado em comunas, foices e martelos.

(O mais claro exemplo dessa postura apagada dos vermelhos barbudos foi a decisão infame de desfazer a candidatura de Olívia Santana em detrimento da candidatura imposta pelo PT, com Pinheiro à frente. Muito pior, porque o PC do B nem força teve para deixar a “negona” ali, na espreita, como vice. Empurraram-na longe, puxando Lídice da Mata para a vice-candidatura).

Deveria sim caber ao PC do B soteropolitano uma renovação em sua postura, pasmem, uma revolucionária transformação, uma verdadeira tomada de atitude, partir pra cima, fazer jus, na medida certa, ao seu discurso teórico, sair da sombra de um lugar que não lhe cabe mais, principalmente em Salvador, onde a tendência ao ostracismo vem sendo maior, pois, nos últimos anos, o passo mais largo que o Partido deu foi a vice-candidatura, em 2004, do nulo Deputado Javier Alfaya. E, independente de seus 2.385%, Olívia Santana, partindo para uma candidatura, ainda que simbólica, tem muito mais força e melanina influente do que um simpático e inexpressivo espanhol radicado no Brasil.

Não creio que um retrocesso seja o caminho – aliar-se com gente de outro século, os tais Hiltons e Heloísas Helenas –, mas, perante a passividade e covardia do PC do B soteropolitano, é invejável a postura soviética desses antepassados. Pois acredito sim que é muito mais lucrativo e politicamente viável ter independência ainda que pouco visível do que viver da invisibilidade absoluta de ser eternamente um simples partido coligado de Esquerda – sabe-se que essa postura, de ficar no rebote, à espera de cargos, como um aparente mero partido coligado é condizente a quem impõe alguma influência, o caso do PMDB: Gedel apóia João Henrique, mas é base do Governo Lula que apóia Pinheiro.

Amigos e amigas, o PC do B, na Bahia, é mosca morta. Não cheira porque só fede a mofo. Prefere ser sede de jovens socialistas descontextualizados ou mesmo se orgulha de ter em seu quadro parlamentar uma deputada temperamental e mal resolvida, um deputado vaidoso cheio de manias e mordomias, como se pela postura moderninha de ambos isso significasse alguma influência ou enriquecimento político para o Partido em nosso Estado. E é a capital o estopim da inutilidade política do PC do B, que, por conta desse meio-termo que insiste sustentar, vem sendo desacreditado até mesmo pelos sindicatos que sempre foram sua base, pois nem Oliveira (carro-chefe no Sindicato dos Comerciários) nem Everaldo Augusto (homem forte do Sindicato dos Bancários) se reelegeram. Apenas Olívia e Aladilce saíram ilesas: dois pontinhos vermelhos na casa do povo.

O rompimento do PC do B com o PT em outra capitais aconteceu, sim, mas até então não serviu de exemplo para os militantes desta província. Vê-se: Manuela saiu candidata em Porto Alegre; Jandira Feghali, no Rio, desprezou Molon; Jô Moraes, em Belo Horizonte, viu de longe o namoro entre PT e PSDB; Ricardo Gomyde, em Curitiba; e até em Macapá, o PC do B mostrou-se independente. Mas em Salvador a sombra, obviamente, não viu sol.

Soube que o chato e metafórico José Saramago disse, cabisbaixo – como parece sempre andar – e desiludido, que o comunismo hoje é um estado de espírito. Oralmente o português proferiu estas palavras, e imagino que se as tivesse escrito, decerto, criaria uma longa e irritante metáfora, que chamariam de romance, quiçá, viraria até filme. Acontece que Saramago não é baiano, porque se ele cá estivesse, se fosse filho da Cidade da Bahia, nem alma nem espírito veria para construir a sua melhor frase. Veria apenas sombra.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

A FUNÇÃO SOCIAL DA HOMOSSEXUALIDADE.


Reconheço sim na minha cara robusta um tanto de pessimismo aparentemente assustador. Na minha cara, porém, não está meu coração, sem modéstia, singelo e cheio de esperança. E me dei conta de que devo desde já transparecer na cara o coração quando passou por minha vida, dia desses, não um rio, mas um arco-íris. Vi de perto, comovido, em pleno centro da cidade, a Parada do Orgulho Gay. A comoção, fique claro, não foi a de quem sentiu-se despertado por um súbito impulso homossexual e muito menos por achar bonito o beijo entre iguais em gênero – até porque considero o beijo mais obsceno do que a relação sexual, seja entre heterossexuais, seja entre homossexuais.

Ah, a comoção, o deslumbramento, tudo mais nítido e cheio de vida despertados em mim, levando a tímidas lágrimas, porque vi, nas entrelinhas da festa, um pedaço significativo das positivas mudanças porque o mundo passa. A ascensão da liberdade homossexual, a meu ver, é o contraponto moral mais eficiente nos dias atuais. É nesse simples ato livre, que ainda tanto afeta doentios heterossexuais, que está uma das chaves da grande mudança interior dos seres humanos. Digo isso porque a partir da homossexualidade aspectos sociais, econômicos, filosóficos e morais já vêm passando e hão de passar cada vez mais por alterações que dão à vida das pessoas um novo caráter, fazendo do corpo mero artífice sexual, tomando como essência a alma, em seu mais amplo e integral conceito de humanidade.

Decerto é exagerado – embora para mim qualquer exagero é sempre esteticamente tocante – dizer que a homossexualidade vai salvar o mundo. Convenhamos que não salve por si só, mas o ponto fundamental da salvação está sim nos gays, lésbicas e afins. Tomo como exemplo a abrangente afetação moral que essas pessoas causam nos supostos normais, a diversidade e liberdade de escolha ou simplesmente a liberdade de ser o que é, já vem sendo exemplo para as novas gerações, garotinhos e garotinhas, ainda em tenra idade, não se reprimem em seus atos – nos meninos, atos mais delicados; nas meninas, robustos atos – e nem são tão reprimidos como em outras épocas outros meninos e meninas sofriam. A vantagem de ser o que é torna, sem dúvida, a convivência familiar mais transparente, o garotinho já não se sente culpado pelo gosto que tem tocar outro garotinho, a menina se sente à vontade a sentir mais além a pele da sua amiga, pois já não é mais o tempo das trágicas histórias do Nelson Rodrigues, a hipocrisia na vida familiar, a duras penas, é claro, vem sendo quebrada, gradativamente, graças à homossexualidade.

Outra contribuição, ainda dentro do contexto familiar, está na morte do homem machista, no nascimento da mulher agressiva. No cemitério da vida moral é onde os machistas se encontram hoje porque o aparecimento crescente e sem freios do homossexual permite ao homem experimentar sensações reprimidas por séculos infindáveis, permite que o homem chore, esperneie, olhe o mundo com mais doçura, influenciando, inegavelmente, os homens heterossexuais, influência esta que é de grande importância principalmente na vida amorosa e familiar, pois no lugar do macho vê-se, aos montes, homens delicados, donos-de-casa, mais amantes e menos agressivos com suas companheiras, buscando em si mesmos o prazer de saber dar prazer à mulher amada. A geração aos turbilhões de mulheres agressivas tem trazido contribuições também fundamentais, pois essa agressividade é o passo determinante na conquista da Razão por parte das mulheres, pois hoje, estas enxergam determinados aspectos na vida social com mais frieza, mais cautela, sem o comum desespero feminino, fazendo, assim, o equilíbrio essencial e que vem servindo de exemplo e influenciando as novíssimas e ilimitadas mulheres heterossexuais.

O aspecto sócio-econômico é o que já vem trazendo bons frutos, pois socialmente estabelecida a relação homossexual, este tipo de envolvimento é o freio que faltava à Humanidade na sua densidade demográfica, nesse crescimento populacional desequilibrado, uma vez que a geração de uma nova vida entre pares de gênero igual é biologicamente impossível, tornando possível, à medida em que o tempo passa e a homossexualidade torne-se absolutamente abrangente, uma qualidade de vida ideal, pois quanto menos pessoas melhor se pensa e se pratica as formas de distribuição social de recursos materiais. Mas é óbvio que para chegarmos ao lugar que Thomas Moore inventou (a difamada Utopia) é necessário muito mais do que já vem sendo feito, é preciso sim uma campanha maciça – e falo isso pensando em vias práticas de execução – a favor da legitimação e incentivo familiar e social à homossexualidade, na busca inovadora de influenciar seus filhos e filhas ao gosto homossexual, revolucionando costumes – dar boneca a meninos, dar bolas de gude a meninas – e quebrando as tendências ditas normais – perguntar ao menino quem é o namoradinho dele na escola etc. Essa campanha além de trazer, embora a longuíssimo prazo, os benefícios democráticos da distribuição material, imprime nas novas gerações atitudes mais dóceis nos homens, ações mais práticas e inteligentes nas mulheres.

Anexo à campanha que proponho, seria imprescindível partir do governo federal um incentivo, que pode acontecer desde já, aos homossexuais adultos, à adoção de crianças, matando dois coelhos numa só cajadada: menos crianças nos orfanatos (o que significa mais amor entre seres humanos) e naturalmente menos gente gerada no mundo (porque a partir desse incentivo, nenhum dos parceiros ou parceiras vai se submeter a fazer um filho fora da relação, uma vez que terá o direito, por lei, de adotar uma criança).

A separação sexo x amor está melhor configurada numa relação homossexual, nela as barreiras impostas na dura e repressora relação heterossexual não se fazem presentes, pois a liberdade, e porque não dizer, a libertinagem do corpo, do impulso sexual ultrapassa limites que vão aflorar numa visão mais voltada à essência humana, distanciando-se mais e mais da hipocrisia tão em voga entre heterossexuais quando dizem sentir prazer e desejo apenas entre si mesmos. O despudor corpóreo trazido pela homossexualidade e sua utilização prioritariamente para a satisfação sexual faz das sensações, fundamentais à renovação do espírito, uma eterna novidade. Essa separação, para muitos, drástica, é a mais simbólica e fundamental contribuição da ascensão homossexual, porque se identifica mais claramente nessa revolução moral o conteúdo humano, a demonstração explícita de se ver as pessoas como pessoas, amando-as como pessoas, como almas humanas em si, desprezando, ainda que implícito, classificações, dando ao gênero – antes protagonista – o mero papel de figurante nesse novo e especial contexto da Humanidade.

A mudança já teria dado passos muito mais largos se não fossem, sabe-se, as Instituições que insistem introduzir nas pessoas a repulsa a homossexuais, e essa repulsa propagada ora aparece de cara aberta nas igrejas, centros espiritualistas, mesas de bar e Forças Armadas, ora camufla-se nas Jurisdições e parlamentos políticos. Em resposta a estes ataques ainda constantes, a reação homossexual de maior relevância infelizmente é a de menor eficiência, e talvez a que mais prejudica o natural andamento da transformação em foco. Porque se fecha em guetos, criam grifes, bares, departamentos, revistas e até igrejas, a homossexualidade estagna-se como folclore, e pior do que isso, configura sobre si mesma perante a sociedade a insistente e prejudicial imagem de “diferente”, “extravagante”, “anormal”. O que seria uma defesa ganha a pólvora de fogo-amigo. Claro que deve se separar o joio do trigo, a formação de grupos em defesa dos homossexuais é fundamental, pois preza pela defesa, pela integridade de, antes de tudo, seres humanos. Nesse ponto sim é importante a classificação, embora não seja o suficiente para legitimar os chiliques verborrágicos e provocações piadísticas e pouco relevantes de Luis Mott quando diz que quase todo mundo na História foi gay, desde São Sebastião (que morreu flechado com um pau nas costas) até um Zumbi dos Palmares (talvez porque fora esquartejado e colocado à mostra com o próprio pênis na boca).

Ainda que intercalado a ações equivocadas e ligeiros vazios de conteúdo, vê-se na configuração do ser humano do século XXI o retorno do grande crescimento de nossas almas, numa analogia, aqui, lógica, ao período helenístico, onde a homossexualidade tinha função social efetiva, onde mestres e discípulos – homens – se envolviam, por inteiro, no aprendizado filosófico. A analogia cabe, mas sofre a diferença fundamental quando se percebe que é neste século onde estão se configurando homens e – agora sim – mulheres que são, antes, seres vivos, humanos, demasiado humanos, que pensam e podem, à medida que os passos se tornam largos, à medida que a repulsa seja banida, exercer ostensivamente sua plena e delirante liberdade, e porque não dizer, digo outra vez, sua plena e delirante libertinagem. 

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

ERRARAM DE JOÃO!


Quando meu médico recomendou-me pequenas caminhadas, hesitei um pouco por conta do ato de andar que é coisa que muito detesto, prefiro carro, se o tivesse, até pegar ônibus, ou quando me permito um luxo só, tomo um táxi. Há males, eu já disse, que vêm para o bem. E nesse caso falo nem tanto pelo benefício à minha saúde, mas, mais válido porque, numa dessas caminhadas minúsculas noturnas, pelas bandas do Campo Grande, vi, de perto, a humilhação de umas tantas pessoas enfileiradas à porta do Teatro Castro Alves, arreadas no chão, aguardando, para a manhã seguinte, adquirirem um mísero ingresso para o show de João Gilberto.


Um porém nisso tudo é que de nada serve dizer aqui que “tem gosto para tudo”, porque, neste caso, muito específico, não se trata de gosto. Se trata de qualquer outra coisa, menos de gosto. Sei bem que entre as tantas pessoas que solicitamente se permitiram tamanha humilhação são pouquíssimas as que perdem horas intermináveis escutando músicas na voz do João Gilberto, mínimas as que possuem pôster do João Gilberto na parede do quarto, ínfimas as que entendem porque João Gilberto é o ícone da Bossa Nova. Então, para que tanta humilhação? Talvez a psicanálise, a psicologia social, ou o materialismo histórico possam explicar, a seu modo, tal fenômeno. Arrisco que alguns tantos universitários universitários estavam ali para preencher o currículo com matéria extra-curricular: Show de João Gilberto.


Mas a mim não cabe explicar o que leva tanta gente a se esbofetear, acampar na porta do teatro, gastar valores abomináveis para apreciarem o que verdadeiramente não apreciam, contemplar o que não contemplam, ouvir o que mal podem escutar. Sei apenas que a grande sacada pertence ao próprio João Gilberto, fazendo-se de autista, inventando manias, criando casos, não comparecendo a compromissos, tornando-se por isso reverenciado por todos, sem nem saberem porque reverenciam.

Erraram de João. Entre as tantas personalidades que de forma direta ou indireta influenciaram ou foram moldando o que veio a se chamar de Bossa Nova, o verdadeiro e sempre renovado ícone deste gênero musical foi, sem dúvidas, João Donato. Não desmereço o talento e a importância do João Gilberto. Apenas contesto que seja ele o centro das atenções, o ícone, uma vez que o mesmo não criou nada, apenas encorpou de maneira mais condensada o que Roberto Menescal, Carlos Lira, Tom Jobim, Jonny Alf, Tamba Trio, entre outros já faziam a um modo jazzístico muito peculiar. E só encorpou porque no meio do caminho havia João Donato.


A batida do violão é fruto do samba que foi traduzido, na influência do jazz, por Carlos Lira; a letra descompromissada, alienada, amorosa e coloquial – que é uma revolução na literatura musical brasileira – começa também com Carlos Lira, e ganha maior consistência na poesia melódica do Vinícius de Moraes; o toque da bateria característico – na Tailândia se reconhece a batida de Bossa Nova – é fruto, pasmem, da involuntária criação musical de um baterista, no estúdio, gravando disco do João Gilberto; e mesmo o modo baixinho de se canta – isso sim uma invenção atribuída ao tal ícone – é fruto do incômodo de alguns vizinhos dos prédios cariocas exigindo silêncio nas delirantes madrugadas daqueles jovens, entre violões, que para não causarem maiores desentendimentos foram forçados a cantar baixinho.

Tudo isso antes do João Gilberto, tudo isso na influência significativa de João Donato, através de um instrumento nem um pouco familiar à Bossa Nova: um acordeom. Antes do piano, João Donato tocava acordeom, só que de maneira diferenciada, nem regional nem experimental tornando, a partir daí, o que era jazz numa nova linguagem, a mescla exata que veio dar em tudo o que Roberto Menescal, Carlos Lira, Tom Jobim, Jonny Alf, Tamba Trio e João Gilberto passaram a criar.

De forma espontânea, sem nem saber como, João Donato é quem dá o mote à Bossa Nova, é quem verdadeiramente abrasileira os músicos tão bem encaminhados no jazz, à base de Dick Farney, Cole Poter, Frank Sinatra e Chat Baker. É João Donato quem possui o tal suingue inconfundível, a síntese precisa do que veio a se tornar um gênero musical universal. E tudo sem grandes pretensões a ponto de o próprio João Donato só ter se dado conta de sua peculiaridade e importância muitos anos depois. Sem falar que ainda espontaneamente o próprio João Donato troca o acordeom pelo piano, apenas por considerar o primeiro um tanto incômodo de manusear.

João Gilberto declarou: “Eu faço samba.” Acredito. Quem faz Bossa Nova, quem inventa tudo isso que vem sofrendo influência e assédio até de quem não conhece Bossa Nova é João Donato. É João Donato quem vai ensinar a João Gilberto a batida perfeita, entre ovos fritos ao som de Chat Baker e conversas demoradas do meio-fio de Copacabana à casa de Bené Nunes. É João Donato quem inverte a lógica e se reinventa até hoje, fazendo dessa Bossa constantemente nova, incorporando-a a variados ritmos – atitude bem diferente de João Gilberto, que há séculos se repete, tocando as mesmas músicas, as mesmas batidas, causando em Carlos Lira o vômito de declarar: “João Gilberto parou no tempo.”


Anos atrás, João Donato esteve em Salvador fazendo um pequeno show no Centro Histórico, para uma platéia sem grandes celebridades, em pleno domingo, meio-dia. O ingresso? Uma lata de leite Ninho, tudo revertido para instituições de caridade. Com R$ 180,00 é possível comprar 25 latas de leite Ninho. Com R$ 180,00 é possível: pagar para suportar o atraso de quase duas horas do show de João Gilberto; contribuir para o seu adiposo cachê; e encher ainda mais o cofre do Banco Itaú, que foi quem trouxe João Gilberto de volta aos palcos de Nova York, São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. A simplicidade de um João Donato detonou a existência autista, mítica e mercantilista de um João Gilberto.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

OLÍVIA É 2.385% NEGRA.



2.385% é um valor percentual que jamais imaginei que pudesse existir. Nem faço idéia do que venha a ser 2.385%. Ultimamente levo sustos constantes, sofro pesadelos intermináveis, com números gigantes, cifrões agressivos, valores descabidos – embora a recomendação de meu médico seja a de não me permitir chateações nem emoções fortes. Mas, doutor, é mais forte que eu. E veio impresso estampado no jornal: 2.385%. A quem se refere esse número? Pasme quem ainda inocentemente se pasma: Olívia Santana (a “negona”, a que é “a cara da cidade”, a afro-descendente, a feminista, a filha de lavadeira etc etc). 2.385% é o valor percentual do crescimento, entre 2004 e 2008, de bens declarados pela vereadora ao TRE. Simples assim: em 2004, Olívia declarou R$ 5 mil; em 2008, vergonhosos R$ 125 mil. É o comunismo em processo evolutivo. Rosa Luxemburgo, retorcida na cova, grita de lá: “Isso é acúmulo de capital”.


Pois bem, haverá quem se indigne e me pergunte: “Por que ‘vergonhosos R$ 125 mil’? E a partir daí já sei, sou obrigado a sofrer o antigo discurso comunista de que os “vermelhos” defendem a distribuição de riqueza, não a distribuição de pobreza. Até aí concordo, é bem o meu ponto de vista, desde que efetivamente a riqueza gerada seja realmente distribuída. Mas considero esses R$ 125 mil vergonhosos sim porque em sua justificativa Olívia Santana diz ter conseguido economizar, fazer uma poupança de R$ 40 mil em quatro anos, diz ter conseguido um empréstimo grande, gigantesco, com duas pessoas amigas, fora uma parcela de R$ 20 mil junto ao Banco Real. São vergonhosos porque ao discurso dela não cabem 2.385%, no histórico dela não cabem as justificativas para crescer, de Atenas a Pequim, 2.385%.


Posso conceder crer que ela distribua, como comunista de carteirinha que é, esse valor entre os seus camaradas, e brinco de adivinhar comigo mesmo para saber com quem Olívia Santana anda distribuindo o acréscimo de 2.385%. Decerto uma parte disso vai para a empregada doméstica de sua casa – de lavadeira ela não precisa porque, óbvio, existe máquina de lavar roupa. Outro pedacinho dos 2.385% devem estar bem mal distribuídos entre a assessoria da vereadora – diz-se, à boca graúda, ser a assessoria de menor remuneração na Câmara. Uma parte, talvez, ela conceda às Instituições Raciais que ela defende – nem só de idéias e raça vive o homem. Mas ainda assim é pouco para justificar 2.385%.


(A inflação nunca chegará a 2.385%; o aumento salarial, em crescimento, desde Getúlio Vargas, não chega nem perto de 2.385%; nunca um candidato, em comparação à eleição passada, terá um acréscimo de votos de 2.385%; o número de analfabetos, em cinqüenta anos, não diminuiu 2.385%; e o Brasil não sabe quando sorrirá 2.385% de crescimento do seu PIB. Valor assim, até o presente momento, cabe apenas aos adiposos bens da vereadora Olívia Santana).


Claro que a “negona” não foi a única na Câmara a passar pela situação chata de ver seu patrimônio crescer metros de cifras. À frente dela, em valores absolutos, estão Beto Gaban, Gilberto José, Silvoney Sales, Paulo Magalhães Júnior e Paulo Câmara. Mas nenhum, ninguém, entre os vereadores e vereadoras, sofreu um acréscimo tão significativo quanto Olívia Santana. Mas faça-se justiça: ela é mulher, nasceu na periferia, passou por dificuldades, filha de lavadeira, é preta, é comunista e é feminista, ou seja, possui justificativa suficiente para justificar 2.385%. Por sinal, sugiro que se coloque tal crescimento no livro dos recordes, pois além de estimular outros parlamentares a encherem bem a declaração de seus bens, tentando superar a marca da vereadora, tê-la no livro dos recordes, com este recorde, seria ótimo para o Partido (diminuiria a distância talvez com o povo), seria bom para o movimento negro (de forma adequada a cota estaria estabelecida também no livro dos recordes) e bom também para a bandeira feminista (mais uma mulher a vencer o Guiness).


Não estou dizendo aqui que a vereadora não tem direito a conforto, casa própria, estabilidade e roupa lavada. Isso desejo, verdadeiramente, para todas as pessoas, sem distinção de melanina. Quero saber apenas de onde saiu o acréscimo de 2.385%. Ou mais que isso, saber se há ou não há contradição entre o discurso feroz de Olívia Santana e a declaração de bens recheados de Olívia Santana. Pois saibam: fosse a ingenuidade ainda característica minha, juro que hoje estaria tenso esperando a forma como a sociedade, o Partido e as Instituições Negras reagiram. Mas são outros tempos, justificativas socialistas e raciais existem de sobra para legitimar um percentual tão abusivo.


Quando Olívia Santana chega ao seu bairro do coração – Engenho Velho da Federação –, embora ela não esteja no coração do bairro, ninguém, nem eu, iria imaginar que aquela nobre vereadora, guiada por seu motorista, no velho Fiat Uno que ela sempre fez questão de não trocar, passaria, em quatro anos, por um acréscimo de 2.385%. Ela bem sabe fazer a coisa certa, pois não cairia bem para uma parlamentar comunista, militante negra e feminista fervorosa desfilar em carro de última geração, por isso, deve-se, sim, transformar dinheiro em bens menos visíveis, bem mais lucrativos. A discrição de seus bens cai por terra num olhar mais atento, detalhado, feminino, quando se percebe a marca de sua bolsa, a marca de seus sapatos.


(Estupefata com um valor percentual que nem a pobre coitada acredita existir, dona Fulana não sei de onde, me disse, cheia de si, cheia de sabedoria: “É uma falta de absurdo!” )


E faço um singelo, mas, ao menos, simbólico pedido à vereadora: por favor, querida, ao pisar no chão da periferia – lugar comum de seu mandato – pise-o com cuidado, carinho, se possível, como quem desliza macio sobre ovos, para não machucar com seu solado de 2.385% de crescimento de bens em quatro anos, o suado asfalto por onde passam e seguem adiante, séculos adentro, sem percentagem alguma que lhes favoreça, as lavadeiras, as filhas das lavadeiras, os negros e as negras pobres da cidade do São Salvador.